A MORTE DO PALHAÇO
Texto original: Julio M. J./
Adaptação: Adriano Luiz, Ana Cristina
Guida e Rosana Mancini
Personagens: Apresentador, Consciência, palhaço-médico, palhaço-operário, palhaço-hippie, palhaço-Gari, palhaço-palhaço.
Cena Única
(Começa pela porta do fundo.
Entra o Apresentador cantando “Sonhos de Palhaço” de Antônio Marcos, sobe no
palco que deeve estar fechado, fica
costax costa com a Consciência. A consciência faz tudo o que o
Apresentador faz. Apresentação dos palhaços)
Apresentador: - E atenção!/
Respeitável público/Vamos dar início a última parte do espetáculo desta
noite/ Deste grandioso circo que se despede hoje/ depois de uma temporada de
muito sucesso/ E apresentamos agora aquele/
que durante muito tempo/ foi o artista principal desse show/ E com vocês
Bambi o palhaço!
(Entram os cinco palhaços, 1
com uma bola, 1 com um urso, 1 com uma boneca, 1 com um carrinho e 1 com um
cachorro? Rufam os tambores e imediatamente após a combalhota dos cinco e
parada com todos iguais, com os braços abertos)
Pequena Pausa
Consciência: - Ah ah Meu caro apresentador! Mas qual deles é Bambi
o palhaço? Vamos! Dia a esse distinto público.
Apresentador: - Qual de vocês
é Bambi o Palhaço?
( Nova cambalhota para frente
e os cinco respondem juntos)
Todos os palhaços: - Eu sou Bambi!
Apresentador: - Muito bem/ Já que todos são Bambi o palhaço/ que
cada um mostre a sua função/ hoje/ aqui neste palco.
Palhaço Médico: - Eu estou aqui/ para ver os sorrisos e as
gargalhadas das pessoas/ as suas feições de festa e o seu mundo de amor/ Pois
desta forma ainda consigo acreditar num mundo melhor/ Meus sonhos tornam-se
concretos quando aqui estou/ as minhas palhaçadas e piruetas servem para
amenizar nosso trauma diário/ Portanto sou um eu/ representado por um boneco de
sorte/ Que em sua arquitetura, leva um sorriso nos lábios.
Palhaço Operário: - Minha função é divertir as pessoas/ fazer com que
elas esqueçam os problemas diários/ e busquem um pouco de tranquilidade/ Fujam
do dia a dia/ para suportar o amanhã/ esquecendo as dificuldades do ontem/ Crio
nas pessoas um mundo de fantasias/ ilusões/ e sonhos/ Levo aos outros uma
realidade diferente/ Na qual o olhar representa pureza/ E um aperto de mão/
representa amizade.
Palhaço hippie: Sou um palhaço pensador/ Estou sempre pensando/ Penso
num movimento engraçado a se realizar/ num salto extraordinário/ ou num tombo
desgovernado/ Penso para entrar no picadeiro/ Penso para dar cada passo/ e
assim marcar um compasso animado/ Penso no que todas as crianças podem estar
pensando/ Após cada número do meu espetáculo/Penso também nos adultos/ Em cada
um dos olhares/ em cada riso/ Em cada silêncio/ Penso em uma saída triunfal
nunca vista/ Penso que por pensar/ posso aprender com isso/ Vocês já chegaram a
pensar nisso?
Palhaço Gari: - Sou um palhaço alegre/ Gosto de fazer as crianças se
divertirem/ Também gosto das cores/ Por isso estou sempre colorido/ Espalho
alegria a todos/ Por isso as pessoas vem ao circo/ E lotam a platéia para verem
este mundo alegre/ Não somos nós somente/ que levamos a vocês estes
espetáculos/ Há um conjunto de emoções/ E pessoas/ Que fazem de sua vida um
espetáculo.
Palhaço Palhaço: - O palhaço faz as pessoas rirem/ Mas a vida de um
palhaço não é só risos/ A primeira esperança do palhaço/ É tentar deixar na
criança/ A imagem do palhaço como herói/ E no adulto/ A lembrança de que um
dia/ Ele foi criança/ Palhaço significa alegria/ Humildade e pureza/ A
recompensa em ser palhaço/ É quando vemos no sorriso da criança/ A alegria
estampada/ O palhaço é o único que traz a alegria com ele/ E não precisa
fabricar/ O meu nascimento se dá quando o espetáculo começa/ E morro quando o
mesmo chega ao fim/ Eu queria que cada um tivesse/ Um pouco de palhaço no
coração/ Venha/ Vamos/ Junte-se a nós/ E mostrem o palhaço que há dentro de
você!
Apresentador: - Muito bem, já que vocês se apresentaram/ Comecem o
show de hoje/Pois este público/ Não veio aqui apenas para conhecê-los/ E sim
para se alegrar.
Consciência: Comecem a diversão!
Apresentador: Brinquem...
Consciência: Vamos....
Palhaço palhaço: - Vamos brincar de roda, venham...
Palhaço médico: - Ah! Não gosto...
Palhaço operário: - Não quero...
Palhaço Hippie: - Hi! Não sei...
Palhaço Gari: - Isto é chato...
Palhaço palhaço: - Já vi tudo, vocês não querem brincar de roda.
(neste instante o palhaço
palhaço começa a brincar com a consciência)
Falsos palhaços: - Mas nós não sabemos brincar de roda!!!
Palhaço palhaço: - Como não sabem?
Palhaço médico: - Na nossa infância não aprendemos.
Palhaço operário: - Oh, sabemos brincar de máquina
Palhaço hippie: - Encaixem as engrenagens...
Palhaço Gari: - Então vamos...
(Os palhaços começam a
brincar de máquina)
Palhaço palhaço: - Parem!!!! Eu não sei brincar de máquina
Falsos palhaços: - Você sabe brincar de máquina!
Consciência: - Mas como palhaços que sabem tão bem brincar de
máquinas?
( enquanto fala a conciência
tira o ziper do médico)
Palhaço médico: - Esperem! Creio que cada um de nós/ não está aqui
para representar/ E sim para fugir/ desta longa aventura da vida/ Para nos
esconder atrás de uma máscara/ ou de uma fantasia/ cobrindo-se todo/ para não
ser identificado/ Tapando os olhos para não ver desgraças/ saltando de lá para
cá/ tentando se equilibrar/ na corda bamba de nossos dias/ é meus amigos,
desculpem-me... por tentar enganá-los/ mas eu não sou um palhaço/ sou um
simples produto de consumo...
Todos: Produto de consumo?
Apresentador: Como produto de consumo/ se você/ em sua definição/
falou que iria alegra e divertir a todos?
Palhaço médico: Esta seria minha função/ mas em meus documentos/ levo
um Doutor na frente do nome/E como já cansei/ das lamentações de meus
pacientes/ morrer a cada instante/ e na minha ambição de subir mais e mais/ Me
deleitar com o sofrimento dos outros/ na hora de pagar a consulta/E que/ A cada
batida do meu estetoscópio/ Aumento o preço/ Hoje estou aqui/ Para que juntos
de vocês palhaços/Possamos oferecer um pouco de alegria/ a todos os presentes.
Palhaço Gari: - Estou com o senhor Doutor/ eu sou um nada/ um Zé
ninguém/ coleto lixo das ruas e ouço mil vozes a cada instante/ lá vai aquele
vagabundo/ aquele fedorento/ saiam de perto pois ele só vive com cachorros/ Eu
também cansei/ Cansei de virar peteca nas mãos dos outros/ de ser jogado como
trante qualquer/Cansei de afogar minhas mágoas numa garrafa de cachaça/pois por
ser simples eu era rebaixado/ Fui até destituído de valores morais e sociais/ E
aqui estou também/ E me junto a vocês/ Para poder enchergar em vossas faces/ um
mundo melhor.
Palhaço Operário: - Como vocês irão perceber/ eu também não pertenço a
este mundo/Pois de obra em obra/ de tijolo em tijolo/ ajudando a construir
este/ Maravilhoso mundo de concreto/ cansei de olhar em torno de mim e
encontrar/ no lugar de uma flor/ um saco de cimento/No lugar de uma árvore/ Uma
pilastra/Então fugi/ Fugi e me refugiei neste circo/ Fugi daquilo que me
cercava/ para ver se aqui eu encontro/ Aquilo que quero/ fazer de minha vida/
Construir uma mémória/ não um monumento.
Palhaço hippie: - O palhaço pensador /representa a minha libertação/
Pois revoltado com tudo/ tornei-me um hippie/ ou melhor um pária da sociedade/
como eles dizem/ Tornei-me um amante da arte/ da arte de minha próprias mãos/
transformei meu rosto/numa tela de tintas disformes/ Fiz de meu corpo um esboço
de gente/ Que não representa nada/ E minhas mãos/ Que antes seguravam um
pincel/ Agora só servem para ficar estendidas pedindo esmolas/ Então me perdi
num mundo de desespero/E para não sucumbir/ tornar-me a própria imagem do meu
não/ Estou aqui/ para tentar mostrar a vocês/ um novo caminho/ diferente desta
grande desordem emocional/ que já senti.
Consciência: - E você palhaço/ está escondido atrás de qual
disfarce?
Palhaço palhaço: - Estou escondido atrás de meu próprio disfarce/ Pois
não uso estetoscópio/ garrafa de cachaça/ pá/ ou boneco de artesanato/ Pois
meus instrumentos são vocês/ Vivo com sua presença/ Me realizo em realizá-los e
alegrá-los/ Nasci de um ventre sem nome/ Me criei num lar de fome/ mas venci/ E
hoje posso dizer/ depois de anos e anos/ que aprendi/ através destes senhores/
A me conhecer melhor/ Agora posso morrer tranquilo/ pois consegui enxergar/ o
que há além da vida/ E isto já me basta/ pois neste mundo/ já deixei
sucessores... ( morre)
Todos: Você também/ é em parte/ responsável por esta morte.
Consciência: O espetáculo terminou/ porque ele morreu/ este sim é
que é o palhaço/ Que não pergunta quem é/ pra onde vai/ ou de onde vem/ Se tem
ou não tem vintém/ Se é rico/ poeta/ ou Zé ninguém/ Hoje ele já se foi/ levando
no rosto/ as marcas de uma vida de arte/ Pois quem é artista hoje em dia/ vive
sempre marcado/ saltando de cá para lá/ tentando se equilibrar/para chegar a um
futuro melhor/ Que fica sempre distante e obscuro// Mas ele venceu/ e se seu
corpo se foi/ a sua alma ficou/ sua
força ele deixou/ nossa mente ele abriu/ Agora só nos resta olhar para dentro
de nós/ e seguir em frente/ tentando deixat alguma coisa de bom/ procurando
respostas/a perguntas que nunca foram feitas/Na nossa/ interminável viagem para
o amanhã.
( O Palhaço morto é carregado
como se fosse um caixão, para um lado, o apresentador sai do outro lado,
cantando: “sonho de palhaço: e a consciência vai atrás do palhaço morto como se
fosse um enterro)