Depoimentos
"Rosana Mancini, passaredo em revoada, madrigal, flor amorosa e ciclamen de outono,  voz de água doce, sinceridade na arte e na vida. Um dia dirigi Rosana cantando, com Dudah Lopes, o Derradeira Primavera, de Vinícius e Jobim. Ficaram na memória a saudade e a lembrança de uma interpretação visceral, de uma cantora que sabe exatamente o que diz.
"Vamos trabalhar as mãos", eu dizia no ápice da canção, e os braços abriam-se, então, num abraço indizível de quem compreende o mundo aquém de qualquer detrimento ou mácula, Deus deflagrado em ofício, epifania e transbordamento...
Acho que isso se chama generosidade.  Acho que isso se chama talento.
E neste dia eu os conheci em sua essência. "
Heron Coelho
"Bem, conheci a Rosana na noite paulistana, mais precisamente em Pinheiros, quando tocava meu violão e cantava meu repertório brasuca e próprio por ali. Nosso papo era em altíssimo nível, cultura total, música, música e mais música. E uns pitacos também em outras áreas da vida. Fechávamos todos os bares daquela área. Discordávamos, discutíamos, mas chegávamos sempre num consenso: que era e é preciso união e inovação na busca dos nossos objetivos maiores sobre a cultura brasileira. E é aí que me vem uma imagem linda da Rosana: a pessoa que semeia essa união/inovação, que a deseja, que a põe em prática, em todos os setores de sua vida. Não foram poucas as vezes em que ela me passou, em momentos diferentes de minha vida, essa força, esse sentido, essa super-qualidade que a diferencia da maioria das pessoas, principalmente as que freqüentam o meio musical. Até quando fizemos uma serenata juntos, um episódio muito engraçado, e que foi um barato total, senti essa sensação: para a Rosana o novo é sempre o que está por vir, mesmo que pareça repeteco ou uma ultra-novidade. "
Adolar Marin, 18/09/2005
 

COM A ALMA CHEIA DE MÚSICA – 4
Foi no começo de 1996...
Na farmácia homeopática que freqüento há anos , havia um singelo cartazinho , desses feitos em computador, dizendo: “Professora de Violão e Canto, Rua tal, nº tal”.
Como o enderêço era no mesmo quarteirão da minha casa e o prêço era ótimo, não havia mais desculpas para eu deixar de re-aprender um pouco de violão.
Atendeu-me uma moça muito simpática, uns dez anos mais nova do que eu.
Disse-lhe que tinha vindo por causa do anúncio. Ela me pediu para aguardar um pouco porque estava terminando uma aula.
Depois de uns vinte minutos, retornou, com um menino carregando um violão, e despedindo-se gentilmente.
Colocou-me dentro de sua sala, no andar de cima, e foi logo perguntando se eu já tocava alguma coisa. Entregou-me um violão e avaliou o meu nível de conhecimento, ali, na hora, considerando-me uma aluna intermediária.
Fiquei encantada com a organização da Rosana... Eram armários cheios de letras de músicas “xerocadas”, para todos os níveis que ensinava (básico, intermediário e avançado), e preocupava-se em tirar novas melodias, para satisfazer o gosto de seus alunos de todas as idades. Desde músicas infantis, até para a terceira idade. No convívio, só foi crescendo minha admiração por aquela moça, que tinha delicadezas especiais com todos e em todas as oportunidades.
Por exemplo: para incentivar a que os alunos se desinibissem para tocar em público, ela inventava uns “saraus” para todo mundo tocar junto, e não para aparecer quem tocava melhor ou pior.
Logo, a sala e a casa ficaram pequenas, pois naturalmente, todos queriam participar. Resultado: passamos a fazer pequenos shows em pizzarias à noite e no Parque da Água Branca, ao ar livre, nas manhãs de sábado.
Juntavam de vinte a trinta violões e vozes, sempre com o mesmo espírito: doação da música e pela música, que ela tanto amava e nos ensinava a amar.
O público adorava! E cantava junto, com as letras distribuídas...
Rosana é assim: disposta a “dar canja” em aniversário de amigos (só na minha casa deu várias), participa de shows muito bem elaborados e ensaiados com obras dificílimas, que eram cantadas por Elis Regina, por exemplo; cantou no meu casamento carregando mais três cantoras (duas irmãs e uma amiga), e até uma serenata para um amigo meu, debaixo de uma chuva fininha ela se dispôs a fazer.
Ou seja, com ela “não tem tempo feio”; Rosana, afeto e música são a mesma pessoa!
Ano passado, finalmente, coisas maiores começaram a acontecer... (Sim, porque ela merece há muito tempo !!! ).
Gravou o primeiro CD de “Chorinhos” cantados, que teve como título o nome de um de seus Grupos Musicais: “Flor Amorosa”, que é também um dos choros mais antigos gravados no Brasil.
No Grupo, que prima pelos arranjos vocais muito bem elaborados, estão suas duas irmãs Lurdinha e Verinha Mancini, a amiga e fonoaudióloga Anna Maria Machado e a excelente pianista Dudáh Lopes, além da própria Rosana Mancini.
As “meninas”, além de serem tão simpáticas e dispostas quanto a Rosana, fizeram um trabalho imenso de pesquisa em arquivos de rádios, durante meses, sobre as músicas que melhor representavam o “mundo do choro” dos anos 20, 30 e seguintes.
Gravaram músicas tradicionais como “Brasileirinho”, “ Odeon ” e a própria “Flor Amorosa”. Dificílimas como “Espinha de Bacalhau” e a maravilhosa “Tão só” que é uma composição de Izaías Bueno de Almeida (um “papa” do chorinho no Brasil) e uma delicada e romântica letra das próprias meninas do Flor Amorosa em criação conjunta.
O CD vale a pena, e já está sendo preparado um de samba-choro para este ano.
O “Flor Amorosa”, com o seu amor ao canto, tem se apresentado em diversos Teatros da Capital, e defendido músicas de Luís Nassif e outros autores em festivais do interior (Santa Bárbara D'Oeste, Avaré, São José de Rio Pardo).
No www.expresso2222.com.br você pode ouvir algumas faixas do CD ou adquiri-lo no www.umes.org.br .
A própria gravadora também faz contatos para shows.
Posso dizer de “cátedra” que o som das meninas vale a pena!
Ana Lúcia Mesquita Mazzei Massoni